Carlos do Carmo morreu na sexta-feira, aos 81 anos. As cerimónias fúnebres contaram com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro-ministro, António Costa, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, e o autarca de Lisboa. Fernando Medina tinha decretado, neste dia de luto nacional, que a canção “Lisboa, Menina e Moça”, eternizada na voz de Carlos do Carmo, passasse a ser o hino da capital portuguesa.
E foi ao som de “Lisboa, Menina e Moça” que saiu o cortejo fúnebre da Basílica da Estrela. Passavam poucos minutos das quatro da tarde quando as portas da igreja se abriram. Lá de dentro, saíram oito guitarristas e dez violas a tocar. À frente, um dos decanos da guitarra portuguesa, o mestre António Chaínho. Atrás de si, a nova geração de guitarristas, com Angelo Freire, Pedro de Castro, Luís Guerreiro, Gaspar Varela e André Dias ladeados por outros dois guitarristas de outra geração, Mário Pacheco e Paulo Soares.
“Lisboa, Menina e Moça” foi acompanhada por dezenas de populares presentes, com palmas e entoando a letra que Ary dos Santos escreveu. Nas escadarias da Basílica da Estrela, surgiram os rostos de vários fadistas. Mariza, visivelmente emocionada, não quis falar. Também pela igreja passaram, durante o dia, Camané e Carminho. De outra geração, João Braga recorda o amigo com quem partilhou muitos e bem-humorados jantares, mas também aquele que se preocupou em dar a mão a uma nova geração do fado.
O fadista conta que, em 1990, disse a Carlos do Carmo que era dos mais novos do fado. João Braga lembra que o amigo brincava com a diferença de idades que tinham, e alertou Carlos do Carmo para a necessidade de renovação do fado. “O que não se renova, morre”, sublinha o fadista que, com Carlos do Carmo, diz ter feito um “trabalho de equipa” nessa renovação da arte do fado.
Exemplo disso são fadistas como Marco Rodrigues, também presente no funeral. O jovem fadista lembra o primeiro encontro do qual guardou um ensinamento de Carlos do Carmo. “Eu disse que tinha sorte em algum dia me ter cruzado com ele. Depois repeti a palavra sorte uma série de vezes e cheguei a um ponto em que o Carlos me disse: 'ter sorte dá muito trabalho, portanto, se está com sorte é porque trabalhou para isso'”, lembra Marco Rodrigues.
Presentes também na missa de despedida a Carlos do Carmo estiveram músicos de outras áreas, como Ágir e o cabo-verdiano Tito Paris. Lado a lado, recordam Carlos do Carmo. Agir, filho de Paulo de Carvalho, sublinha a forma como o fadista “fazia questão de partilhar o palco com mais novos, mais velhos, com fado e não fado”. Agir fala em “agregação” que vai deixar “saudade, mas também um exemplo a seguir”. Já Tito Paris lembra que foi a ouvir Carlos do Carmo que o seu ouvido despertou para o fado e diz que hoje “a lusofonia ficou mais pobre”.
O mundo do espetáculo, com vários atores, músicos como Rui Veloso e o cineasta António Pedro Vasconcelos, estiveram neste derradeiro adeus a Carlos do Carmo. Também os empresários do setor marcaram presença, desde as discográficas aos produtores como Álvaro Covões que lamenta a partida do fadista “que nunca desistiu, que sempre acreditou na cultura portuguesa e que, a par com a Amália Rodrigues, levou o fado a todos os cantos do mundo e fez de Portugal um país diferente.”
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